Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole em 06 de agosto de 2026
Antes das grandes avenidas, dos atacadões da vida e dos aplicativos de entrega, o abastecimento de Salvador se resolvia na conversa e no balcão das feiras populares, entre o camarão seco, a farinha, o quiabo e o azeite de dendê. A cidade acelerou e trouxe a tentativa de impor o "jeito São Paulo" de consumir: um modelo que troca a feira popular pela lógica de shopping e empurra a antiga clientela para fora, tanto pelo preço quanto pela atmosfera gourmetizada.
Mas um pedaço da cidade ainda resiste a essa fórmula. Longe das grandes requalificações, mercados como o das Sete Portas, Paripe e Ogunjá preservam a rotina popular no balcão. Neles, a sobrevivência não dependeu de obras ou grandes reformas, e sim da capacidade dos comerciantes de se reinventar sem perder a baianidade, mesmo com estrutura precária.
Heroísmo para resistir
Inaugurado em 1940, o Mercado das Sete Portas virou ponto de reação contra o esvaziamento do comércio tradicional. Há 35 anos no ponto deixado pelo pai, Jair Nascimento dos Santos enfrentou as mudanças no transporte e o crescimento dos supermercados de bairro alterando a forma de trabalhar: criou um serviço de entregas diretas para manter ativa a clientela que já não consegue ir até a feira.
Há 42 anos no local, Janete dos Santos, a Linda do Beiju, reforça que o mercado segue de pé pela teimosia de feirantes e clientes fiéis que recusam substituir a feira tradicional pela conveniência dos grandes centros. "Hoje, quem mantém isso aqui é quem vem de carro e faz questão de continuar comprando com a gente", resume.
Passado e futuro
A luta pela permanência também passa pela modernização do balcão. Yuri Souza Trindade representa a terceira geração de uma família que está há seis décadas no espaço. Diante das transformações do setor, ampliou o mix de produtos e usou o alcance das redes para colocar o público dentro do mercado.
Muitos clientes ainda desembarcam no Mercado das Sete Portas porque há produtos de qualidade dificilmente encontra em outro lugar, muito menos nos supermercados da cidade. O que inclui, entre outras iguarias, a miraguaia salgada, peixe famoso por substituir o bacalhau e muitas mesas baianas, a farinha de mandioca de várias cidades do interior, o feijão mulatinho e a linguiça defumada de Maragogipe. Sem falar nos restaurantes das antigas que vendem toda sorte de rango pesado, do mocofato à dobradinha, da feijoada à maniçoba.
Novo, mas sem perder o charme
No Subúrbio Ferroviário, o Mercado Municipal de Paripe mostra outro lado dessa resistência, onde a conquista de uma estrutura física garantiu o trabalho dos feirantes. Há 36 anos no local, Floresvaldo Santos Souza começou a trabalhar em uma antiga feira a céu aberto, onde comerciantes conviviam com esgoto e ônibus circulando ao lado das barracas. A construção do mercado mudou essa realidade.
Segundo ele, a melhoria das instalações trouxe mais conforto para comerciantes e consumidores e ajudou a fortalecer o movimento. Mas ele atribui a permanência do mercado, principalmente, à relação construída entre permissionários e fregueses ao longo de décadas. Para Floresvaldo, o diferencial continua sendo o atendimento e a confiança cultivada diariamente entre quem vende e quem compra. Além, é claro, do padrão baiano de conviver e consumir.
Luta contra a degradação
No Mercado do Ogunjá, a resistência ganha contornos mais duros: a luta contra a degradação física e o abandono do poder público. Mesmo com trechos interditados e sem grandes reformas há cerca de duas décadas, os feirantes que permanecem no local recusam-se a cruzar os braços. Diante da ausência de intervenções oficiais, os próprios comerciantes assumiram o custeio da iluminação interna e executam reparos do próprio bolso para manter os boxes abertos.
Há quase 46 anos no mercado, Robson Teixeira viveu o apogeu do espaço nas décadas de 1980 e 1990, quando consumidores de diversos cantos da capital lotavam os corredores. Com a falta de manutenção afastando o público, Robson combate o esvaziamento apostando na procedência do produto artesanal. Em sua banca, ele garante o café moído na hora, a farinha do Recôncavo, a banha de porco e o mel de cacau vindo de seu sítio em Santo Antônio de Jesus, oferecendo uma variedade que a rede de supermercados convencionais não alcança.
A cobrança por investimentos mobiliza quem se recusa a deixar a história do local apagar. Filho de um dos fundadores, João Luiz Ribeiro trabalha no Mercado do Ogunjá desde a inauguração e destaca que, dos 144 boxes originais, apenas 41 seguem resistindo. A permanência do grupo é um ato de combate pelo direito de trabalhar. "Nós não vamos desistir. Isso aqui gera emprego, atende bairros importantes", afirma João Luiz.
Desfigurados e esvaziados pela gourmetização
Se nos mercados populares que resistem a sobrevivência depende da capacidade de adaptação dos permissionários, em outros casos a intervenção veio de cima para baixo. Sob a promessa de modernizar e reorganizar o comércio, reformas institucionais acabaram impondo uma estética de shopping center que higienizou a identidade popular e entregou o efeito oposto ao prometido: corredores vazios e queda no movimento.
No Mercado São Miguel, na Baixa dos Sapateiros, esse descompasso é evidente. A comerciante Margarida Inês conheceu o antigo mercado há 32 anos, ainda coberto por galpões, quando o espaço reunia açougue, feira, hortifrútis e um fluxo intenso de clientes.
Ela reconhece que a estrutura antiga já não suportava o tempo e precisava ser substituída, mas afirma que a reconstrução resolveu um problema e criou outro. "O mercado ficou bonitinho, mas os clientes antigos acharam que isso aqui virou shopping", conta.
Nem a vista salva
Poucos mercados de Salvador têm uma localização tão privilegiada quanto o de Itapuã. De frente para o mar, o espaço reúne restaurantes, peixarias e boxes de produtos típicos. Ainda assim, nem a paisagem consegue esconder o esvaziamento.
A promessa de mudança está na reforma anunciada pela prefeitura. Enquanto isso, os comerciantes convivem com boxes fechados e a ausência de clientes durante a semana. Segundo o presidente da associação do mercado, Tom Torres, a expectativa é que a requalificação ajude a recuperar o movimento de um equipamento que, apesar dos problemas, ainda tem força no bairro.
Cadê o público?
Em Cajazeiras, a estrutura não é exatamente o problema. O Mercado Municipal do bairro foi construído para organizar o comércio informal da região e continua conservado. Banheiros funcionam, há água, iluminação e limpeza. Mas o desafio também é fazer as pessoas entrarem. "Hoje quem trabalha aqui precisa buscar o cliente lá fora", diz o comerciante Carlos Passos.
Para turista ver
Poucos endereços ilustram tão bem a gourmetização dos centros de comércio popular quanto o antigo Mercado do Peixe, no Rio Vermelho. Durante décadas, o espaço existiu no sentido mais bruto e literal da palavra: peixe fresco na pedra, pescadores e gente querendo comprar, comer e beber à base da baianidade.
A requalificação urbana, contudo, mudou até o nome. Agora, na Vila Caramuru, os antigos frequentadores encontram são restaurantes de rede e cardápios precificados para o turismo de ocasião.
Mudança parecida ocorreu também na Ceasinha do Rio Vermelho. A reforma concluída em 2014 pelo governo do estado transformou o mais cobiçados dos mercados populares da cidade em uma feira chique para moradores de bairros nobres de Salvador. Como resultado, afastou o povo, provocou o fechamento de diversos boxes e restaurantes e deixou um calor desagradável pela incapacidade de climatizar o espaço.