Política & Economia Artigo
Empresário da Cesta do Povo fala em escolher “sócio” nas eleições; o trabalhador vota no que é melhor para o patrão?
Discurso que trata o voto como escolha de “sócio” escancara o abismo entre o lucro do capital e a realidade de quem vive de salário
03/10/2026 21h52 Atualizada há 36 segundos
Por: Ramon Santos (DRT-6448/BA)
Foto: Reprodução / Redes Sociais

Na publicação recente do empresário Joel Feldmann, da rede Cesta do Povo, a eleição ganhou uma linguagem típica de reunião de diretoria. A mensagem compartilhada em seu perfil foi direta: “Amanhã, vamos escolher um novo sócio para nossas empresas nos próximos 4 anos”.

A pauta já veio pronta: “Como serão os impostos?”, “Quais serão os incentivos para quem empreende e gera empregos?” e “O esforço de quem trabalha e investe será reconhecido?”. Na sequência, o lembrete de que o empresário trabalha, arrisca e movimenta a economia todos os dias.

Pela metáfora, a urna quase poderia ficar ao lado da sala do chefe. E é justamente aqui que eu faço a pergunta que não quer calar: será que todo mundo vai ter cadeira nessa reunião, ou a imensa maioria da população vai entrar apenas como linha na planilha de custos?

Claro que é legítimo que um empresário avalie candidatos pelo impacto nos negócios. Investimento e impostos merecem discussão. O problema dessa comparação aparece quando tentam nos convencer de que um bom “sócio” para a empresa será, obrigatoriamente, um bom governante para o resto da população. Afinal, o governo vai ser bom só para a empresa, ou vai sobrar alguma coisa para o empregado também?

Um governo pode ajudar a atividade empresarial e melhorar a vida de quem trabalha. Esses objetivos poderiam andar juntos, mas essa convergência não acontece por milagre. Uma vantagem para o empregador não se transforma, automaticamente, em aumento de salário ou em redução da sobrecarga de quem está na base.

Entre o balanço azul da empresa e o contracheque magro do trabalhador existe uma enorme distância sobre como o lucro é distribuído. E essa parte nunca entra nos posts motivacionais da diretoria.

Nas publicações do tipo, sobram perguntas sobre incentivos ao capital. Em contrapartida, há um silêncio absoluto sobre remuneração, jornada ou condições de trabalho. É o retrato de uma eleição vista exclusivamente pela lente do lucro: uma perspectiva compreensível para o mercado, mas curta demais para um país inteiro.

Afinal, quem opera o caixa, repõe prateleiras, transporta mercadorias ou limpa o chão também trabalha duro para o negócio existir. O esforço dessas pessoas merece reconhecimento de verdade. E, quando o expediente acaba, continuam existindo o transporte público lotado, o posto de saúde cheio, a escola dos filhos e a fatura do supermercado.

A minha provocação como jornalista é inevitável: estamos escolhendo o governo que será melhor para o patrão? Se o critério for só o lucro da empresa, falta explicar de que forma essa melhora chega a quem vive de salário mínimo. Geração de emprego é ótima, mas a qualidade desse emprego importa.

As mensagens costumam fechar com um simpático convite: “Pense nisso!”. Pois eu aceito o convite e amplio a reflexão. Um governante precisa cuidar de quem investe, mas também de quem trabalha, de quem procura emprego e de quem já não pode produzir.

Na reunião de uma empresa, a participação depende das cotas de cada sócio. Na democracia, o tamanho do patrimônio não deveria definir o tamanho da voz.

Se a eleição vai ser tratada como reunião de acionistas, convém lembrar que a maioria da população não é dona do capital — é dona apenas do próprio suor. E a minha grande questão é: até quando o trabalhador vai continuar usando o voto para enriquecer o patrão enquanto assiste à própria vida encolher?

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