
Durante entrevista concedida nesta sexta-feira (7) a uma Rádio Web, o vereador Cleiton Lima (PV), de Dias d’Ávila, adotou um discurso de defesa ao presidente da Câmara Municipal, José Morais de Almeida Júnior, conhecido como Júnior do Requeijão, após a divulgação de um áudio no qual o parlamentar dirige uma fala de cunho racista ao próprio cunhado.
No mesmo horário em que a entrevista ocorria, a vítima das ofensas, Léo Mineiro, concedia entrevista à Rádio Serrana, emissora tradicional da cidade, relatando o impacto emocional do episódio e reforçando que a fala não se trata de “briga doméstica”, mas de um ato de violência racial com efeitos públicos e sociais.
O caso ganhou repercussão estadual. Além do boletim de ocorrência registrado na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo (DECRADI), o episódio mobilizou órgãos estaduais de enfrentamento ao racismo e defesa de direitos humanos. A vítima esteve na SEPROMI, no CDCN, na Ouvidoria da Defensoria Pública da Bahia e no Centro de Referência Nelson Mandela, que colocaram assistência jurídica e acompanhamento institucional à disposição.
Apesar da gravidade do episódio, Cleiton minimizou o caso, classificando-o como situação doméstica:
“Foi uma briga de família que saiu de um grupo de WhatsApp. Se pegar uma fala fora de contexto, transforma tudo em acusação”, afirmou o vereador.
A fala repercutiu negativamente entre integrantes do movimento negro e de setores da sociedade civil. Conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal (AP 1044 e decisões correlatas), a injúria racial é reconhecida como modalidade de racismo, crime imprescritível e inafiançável.
Além do episódio do áudio, há outro processo envolvendo o presidente do Legislativo.
A Vara Criminal de Dias D’Ávila concedeu medidas protetivas de urgência em favor de Maria Marileide de Morais, irmã de Júnior do Requeijão. A decisão, proferida pela juíza Monique Ribeiro de Carvalho Gomes, decorre de relato de violência psicológica e moral, com agressões verbais e situações de constrangimento no ambiente familiar.
Segundo pessoas próximas ouvidas pela reportagem sob reserva de identidade, Marileide enfrenta tratamento contra um câncer de mama e se encontrava emocionalmente fragilizada no período em que os áudios foram enviados.
Segundo a decisão, as condutas atribuídas ao vereador se enquadram nas previsões da Lei Maria da Penha, que inclui violência psicológica como forma de agressão. A magistrada determinou que o parlamentar mantenha distância mínima de 500 metros da irmã, seus familiares e testemunhas, além de proibir qualquer forma de contato pessoal, telefônico ou virtual. O descumprimento pode resultar em prisão preventiva.
Até poucos meses atrás, Cleiton Lima era identificado como integrante da oposição ao governo municipal. Em 2023, chegou a afirmar ao É Notícias que estava sendo alvo de perseguição política por fiscalizar a gestão. Agora, adotou discurso alinhado à administração que antes criticava, afirmando que o governo “vive seu melhor momento”.
Para uma liderança política ouvida pela reportagem, que preferiu não ter o nome divulgado, a mudança de posicionamento reacendeu questionamentos:
“Quando alguém muda de posição de forma tão brusca, a sociedade naturalmente quer entender o que está acontecendo nos bastidores. Isso impacta a confiança no mandato.”
Cleiton também comentou a decisão do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) que determinou a exoneração de cerca de 200 servidores comissionados sem atribuições definidas. Enquanto parte da população considerou a medida um avanço contra possíveis cabides de emprego, o vereador defendeu a manutenção das vagas:
“Essas pessoas podem ficar tranquilas. O projeto já chegou à Câmara, será votado e aprovado, e os cargos vão se manter.”
Fontes consultadas pela reportagem, sob reserva de identidade, afirmam que tais cargos historicamente funcionam como instrumentos de articulação política no município.
Ao minimizar uma fala de cunho racista, alinhar seu discurso ao governo que antes criticava e defender a continuidade de estruturas comissionadas contestadas, Cleiton Lima passa a ser observado por setores da sociedade como um ator político interessado na manutenção de arranjos tradicionais de poder em um contexto de crescente demanda por transparência e responsabilidade pública em Dias d’Ávila.
O É Notícias reforça que o espaço permanece aberto para manifestação do vereador Cleiton Lima (PV), do presidente da Câmara Municipal, Júnior do Requeijão, e da Prefeitura de Dias d’Ávila.