
O chamado “LuNeto”, combinação de votos em Lula para presidente e ACM Neto para governador, começa a ocupar espaço no debate eleitoral da Bahia. Embora seja apresentado por aliados do União Brasil como uma manifestação da liberdade de escolha, o movimento também revela uma tentativa de utilizar a força eleitoral do presidente para favorecer a candidatura de Neto no estado.
A conta política é simples. Lula possui uma relação histórica com o eleitorado baiano e mantém forte presença popular no estado. ACM Neto, por sua vez, precisa ampliar sua candidatura para além da parcela que tradicionalmente acompanha o seu grupo político.
Ao colocar os dois nomes no mesmo santinho, lideranças ligadas a Neto tentam aproximá-lo de eleitores que apoiam Lula, mas que ainda estão divididos na disputa pelo Governo da Bahia. A associação permite que o candidato do União Brasil circule dentro do eleitorado lulista sem assumir compromisso com o presidente ou com o projeto político do PT.
Apesar da tentativa de aproximar os dois nomes, Lula e ACM Neto não fazem parte do mesmo projeto eleitoral. O presidente participou da convenção que oficializou a candidatura à reeleição do governador Jerônimo Rodrigues, realizada no Parque de Exposições, em Salvador.
O ato também confirmou Geraldo Júnior como candidato a vice-governador e Rui Costa e Jaques Wagner como candidatos ao Senado. A presença de Lula na convenção demonstrou publicamente qual grupo possui o apoio do presidente na Bahia.
ACM Neto segue por outro caminho. O candidato do União Brasil declarou apoio a Ronaldo Caiado na disputa pela Presidência e decidiu manter aberto o palanque nacional de sua coligação. Dessa maneira, cada partido ou liderança de sua base poderá defender um candidato diferente.
A decisão foi anunciada durante a convenção da aliança oposicionista. A liberdade concedida aos aliados permite que o grupo de Neto adapte seu discurso de acordo com a preferência eleitoral de cada região.
Onde a direita possui maior presença, os aliados podem defender seus respectivos candidatos. Nos municípios onde Lula mantém força, lideranças podem apresentar a combinação com ACM Neto. Assim, o candidato ao Governo da Bahia tenta conversar com diferentes públicos sem precisar assumir um único posicionamento nacional.
O presidente da Câmara Municipal de Salvador, Carlos Muniz, tornou-se um dos principais exemplos do “LuNeto”. Mesmo declarando voto em Lula para presidente, o vereador confirmou apoio a ACM Neto e garantiu que participará ativamente da campanha do candidato do União Brasil.
Muniz declarou que trabalhará “voto a voto” pela eleição de Neto e dos candidatos ao Senado que fazem parte da chapa oposicionista. O posicionamento foi anunciado durante um evento realizado no Subúrbio Ferroviário de Salvador.
A posição passou a ser utilizada como demonstração de que seria possível apoiar Lula nacionalmente e caminhar com ACM Neto na Bahia. Politicamente, porém, essa combinação favorece o candidato do União Brasil, que ganha uma porta de entrada entre eleitores ligados ao presidente.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis, também comentou o crescimento do “LuNeto” e defendeu a liberdade de escolha do eleitor. O cidadão, evidentemente, possui o direito de votar em candidatos de partidos e grupos diferentes.
Essa liberdade, contudo, não é o centro da discussão. O que chama atenção é a transformação do voto cruzado em uma estratégia de campanha promovida por integrantes da base de ACM Neto.
Não se trata apenas de uma escolha feita individualmente dentro da cabine de votação. Santinhos, publicações e declarações políticas passaram a associar os nomes de Lula e Neto, produzindo uma aproximação que não existe oficialmente.
O ganho político dessa combinação é desigual. Lula não precisa de ACM Neto para consolidar sua presença eleitoral na Bahia. Neto, entretanto, pode se beneficiar da popularidade do presidente para alcançar cidadãos que talvez não votassem espontaneamente no União Brasil.
Ao aparecer simbolicamente ao lado de Lula, o candidato oposicionista consegue suavizar as diferenças entre os dois grupos e ampliar sua imagem entre diferentes parcelas do eleitorado. A estratégia também permite que Neto mantenha alianças com partidos ligados à direita enquanto seus apoiadores buscam votos dentro da base lulista.
O “LuNeto”, portanto, não representa uma união entre Lula e ACM Neto. É uma combinação eleitoral criada por lideranças que enxergam na força do presidente uma oportunidade para ampliar o alcance da candidatura do União Brasil.
O eleitor continuará soberano para escolher livremente seus candidatos. Entretanto, precisa saber que não existe um acordo político entre Lula e Neto. Por trás do santinho que reúne os dois nomes, quem tenta colher o principal benefício é ACM Neto, pegando carona na força eleitoral do presidente para fortalecer seu projeto na Bahia.