O Minha Casa Minha Vida nasceu como uma das políticas públicas mais emblemáticas do país. Criado para reduzir o déficit habitacional e oferecer moradia digna a quem mais precisa, o programa deveria ser símbolo de justiça social. No entanto, em muitos municípios, o que se vê é exatamente o contrário: um projeto capturado por interesses políticos e transformado em palco de fraudes, favorecimentos e injustiças.
As denúncias se multiplicam: nomes de servidores com salários acima da média, pessoas ligadas a gestores municipais e até candidatos derrotados em eleições aparecem como beneficiários. Enquanto isso, famílias que vivem de aluguel, em áreas de risco ou em ocupações precárias continuam de fora, presas a uma fila que parece não andar.
O problema está, sobretudo, na forma como as seleções e pré-seleções são conduzidas pelas prefeituras. São elas que montam as listas iniciais, abrindo margem para manipulações. Critérios técnicos e sociais, que deveriam ser a espinha dorsal do programa, acabam sendo engolidos por critérios políticos. O sonho da casa própria, que deveria ser direito, se transforma em moeda de troca eleitoral.
Não se trata apenas de fraude administrativa. Trata-se de um ataque à confiança da população em políticas públicas. Quando uma mãe de família descobre que perdeu a chance de ter um lar porque um funcionário com renda estável foi favorecido, o recado é claro: o sistema não está a serviço dos mais vulneráveis, mas dos mais próximos do poder.
A Caixa Econômica Federal e o Ministério das Cidades têm responsabilidade nesse processo. Se a fiscalização fosse rígida, se houvesse transparência absoluta nas listas e punição exemplar para os gestores que burlam as regras, o programa cumpriria seu papel. Mas a fragilidade da fiscalização abre espaço para a repetição de velhas práticas: quem deveria ser atendido continua à margem, e quem não precisa ocupa o lugar que não lhe pertence.
É urgente recolocar o Minha Casa Minha Vida nos trilhos da sua verdadeira missão. E isso só será possível com transparência nas listas, participação da sociedade civil, fiscalização independente e responsabilização de gestores que transformam um direito em benefício pessoal ou político.
O que está em jogo não é apenas um programa habitacional, mas a dignidade de milhares de famílias. O Minha Casa Minha Vida não pode ser mais um capítulo do manual da velha política brasileira.
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