
Ranger ou apertar os dentes durante o sono — ou mesmo enquanto se está acordado ao longo da rotina diária — pode parecer algo inofensivo. No entanto, esse comportamento pode funcionar como um importante sinal de alerta para problemas de saúde mais amplos.
O bruxismo é uma condição cada vez mais frequente na população e pode estar associado a fatores sistêmicos, físicos, emocionais e comportamentais, impactando diretamente a qualidade de vida.
Segundo o dentista Dr. Anderson Gois, professor, mestre e especialista em Disfunção Temporomandibular (DTM) e dor orofacial, o bruxismo é multifatorial e não deve ser ignorado.
“Em muitas pessoas, ele vai muito além dos dentes. Pode afetar dentes, ATM, músculos da face, cabeça, ouvido e até o sono. Em alguns casos, pode estar associado a problemas de saúde sistêmicos que precisam de atenção”, explica o especialista.
O bruxismo é uma atividade da musculatura mastigatória caracterizada pelo ato de ranger e/ou apertar os dentes. Ele pode ocorrer:
Durante o sono (bruxismo do sono);
Quando a pessoa está acordada (bruxismo em vigília).
Muitas pessoas apresentam ambos os comportamentos.
Na maioria dos casos, o ranger de dentes é mais comum durante o sono, enquanto o apertamento é mais frequente durante o dia, muitas vezes de forma inconsciente, em momentos de concentração — como ao usar o celular, ler, dirigir ou trabalhar no computador.
Esses hábitos podem gerar sobrecarga na articulação temporomandibular (ATM) e na musculatura mastigatória, trazendo consequências negativas.
O bruxismo pode interferir diretamente na saúde bucal, causando:
Desgaste dentário;
Fraturas de restaurações, próteses ou implantes;
Dor ou cansaço na mandíbula;
Dor de cabeça frequente;
Dor na face e no ouvido;
Estalos ou desconforto na ATM;
Dores crônicas relacionadas às disfunções temporomandibulares.
É importante destacar que algumas pessoas podem ter bruxismo sem sinais e sintomas aparentes — o que não significa ausência de riscos.
O bruxismo em vigília costuma estar mais relacionado ao estresse e à ansiedade. Muitas pessoas apertam os dentes sem perceber, especialmente em momentos de concentração ou tensão.
Já o bruxismo do sono está mais associado ao sistema nervoso central e pode envolver fatores como:
Predisposição genética;
Distúrbios do sono;
Problemas respiratórios;
Apneia do sono;
Refluxo gastroesofágico;
Consumo de álcool, nicotina e cafeína;
Uso de medicamentos;
Dietas ácidas (energéticos, refrigerantes e bebidas industrializadas);
Alterações neurológicas;
Uso de substâncias psicoestimulantes.
Todos esses fatores podem influenciar na ocorrência dos episódios de bruxismo.
Por isso, a avaliação especializada é fundamental para identificar as causas associadas e definir o melhor plano terapêutico, evitando danos irreversíveis.
Sim. O bruxismo pode ocorrer na infância e, em muitos casos, está associado a fatores como:
Obstrução das vias aéreas;
Fatores emocionais;
Predisposição genética;
Refluxo gastroesofágico;
Distúrbios do sono;
Uso de alguns medicamentos;
Excesso de telas antes de dormir.
Nem sempre o bruxismo infantil indica um problema grave, mas pode funcionar como sinal de alerta para condições sistêmicas que precisam de atenção. A avaliação especializada é essencial para investigar os fatores contribuintes e orientar a melhor conduta em cada caso.
O tratamento do bruxismo deve ser individualizado.
A avaliação por um profissional capacitado permite identificar os fatores envolvidos, verificar se o bruxismo está em atividade e indicar terapias que podem incluir:
Placas oclusais específicas para proteção dos dentes;
Redução de sobrecarga na ATM e musculatura mastigatória;
Mudanças comportamentais;
Exercícios terapêuticos;
Terapias para controle da dor;
Eliminação de fatores secundários associados.
Em alguns casos, é necessário acompanhamento interdisciplinar com outros profissionais da saúde.
Algumas orientações importantes incluem:
Seguir rigorosamente as recomendações do especialista;
Manter os dentes desencostados quando estiver acordado;
Posicionar a língua no céu da boca em repouso;
Utilizar a placa oclusal conforme orientação profissional;
Reduzir estresse e ansiedade;
Manter hábitos de vida saudáveis;
Adotar higiene do sono adequada;
Evitar álcool, nicotina e dietas ácidas;
Praticar atividade física regularmente.
É fundamental reforçar que o bruxismo não deve ser visto apenas como um problema dentário. Trata-se de uma condição que exige uma visão ampliada da saúde, envolvendo aspectos musculares, articulares, sistêmicos, emocionais e do sono.
O diagnóstico correto permite controlar sintomas, proteger as estruturas orais e melhorar significativamente a qualidade de vida. Cuidar do bruxismo é, muitas vezes, cuidar da saúde como um todo.
Dr. Anderson Gois é cirurgião-dentista, ortodontista, especialista e mestre em Disfunção Temporomandibular (DTM) e dor orofacial. Atua como professor de graduação e pós-graduação em Odontologia e é palestrante em cursos e congressos sobre bruxismo, DTM e dor orofacial.
Contato: @drandersongois