
Lula foi reeleito presidente ao derrotar Flávio Bolsonaro, enquanto Jerônimo Rodrigues garantiu a reeleição ao governo da Bahia ainda no primeiro turno. Os resultados preservaram o comando dos governos federal e estadual nas mãos do PT.
Minha leitura é que essas vitórias fortalecem a base governista e abrem uma nova frente de disputa. Encerrada a batalha de 2026, o próximo desafio será enfrentar os grupos que sustentaram a candidatura de Flávio e continuam com força nas prefeituras e nas câmaras municipais. A próxima eleição tem endereço: as cidades.
A sustentação de Flávio teve expressão municipal em diferentes regiões da Bahia, com apoios de gestores de partidos distintos. As manifestações públicas de prefeitos de cidades do interior mostram que esse alinhamento ultrapassou Salvador e o próprio PL.
Para 2028, essa avaliação precisa alcançar tanto quem assumiu o palanque quanto quem, comprovadamente, tenha preferido colaborar de maneira reservada. Apoio político também se expressa em articulações, mobilização de aliados e participação na campanha. A discrição de uma aliança não apaga seu significado político.
O calendário muda, mas as escolhas continuam sujeitas à avaliação do eleitor. Quem se associou ao projeto de Flávio poderá ser cobrado por essa decisão quando voltar a pedir votos para si ou para um sucessor. Uma declaração mais discreta, por si só, não torna uma escolha menos relevante.
É nesse contexto que entra o exemplo de Igor Kannário. Durante a comemoração da vitória de Lula, o cantor chamou o prefeito Bruno Reis de “alemão” e falou em “tomar a prefeitura” em 2028. A manifestação expressa sua disposição de trabalhar pela derrota do grupo que administra Salvador.
A disputa que se desenha, porém, tem alcance maior. No interior e na Região Metropolitana, a base de Lula e Jerônimo tem a oportunidade de fortalecer lideranças, construir alternativas e disputar espaços ocupados por adversários. O mapa desse enfrentamento deve considerar os vínculos políticos demonstrados e as condições de cada município.
É nesse sentido que a próxima eleição pode ganhar contornos de uma “caça” eleitoral aos bolsonaristas municipais: uma busca por derrotar, pelo voto, os projetos locais que deram sustentação ao bolsonarismo.
Para o campo governista, vencer em Brasília e no governo estadual representa força política. Levar essa força às cidades exigirá organização desde agora. A mobilização das eleições gerais precisa encontrar continuidade nos bairros, nos distritos e no diálogo com quem vive os problemas de cada lugar.
O eleitor tem o direito de saber quais projetos seus representantes ajudaram a fortalecer. Alianças públicas e apoios reservados, quando demonstrados, integram essa história. A cobrança por coerência deve acompanhar quem ocupa o poder e quem pretende chegar a ele.
Esse trabalho também exige propostas concretas. Transporte público, atendimento de saúde, escolas, emprego e condições de vida precisam ocupar o centro da disputa. A identificação com Lula e Jerônimo pode abrir portas, mas cada candidato terá de mostrar capacidade para administrar a própria cidade.
Também seria um erro tratar o resultado de 2026 como garantia para 2028. O eleitor pode apoiar Lula para presidente e escolher um adversário do PT para prefeito. Transformar a força nacional e estadual em vitória municipal exige presença, confiança e trabalho contínuo.
A derrota de Flávio encerrou uma eleição. Os grupos que o apoiaram continuam participando da política, com suas lideranças, alianças e projetos de poder. Para uma base fortalecida por Lula e Jerônimo, a próxima batalha será disputar esse poder cidade por cidade, nas urnas de 2028.