
A política de Dias d’Ávila entrou em mais um capítulo daqueles que dividem opiniões e inflamam as conversas nas ruas. A ação judicial que pede a cassação do prefeito Alberto Castro e do vice-prefeito Van da Farmácia reacendeu uma discussão que vai muito além das salas dos tribunais: afinal, trata-se de uma disputa resolvida no voto ou de uma tentativa de reversão no chamado “tapetão”?
O atual prefeito foi eleito pelo voto popular nas eleições de 2024, recebendo o aval direto e legítimo das urnas. Ainda assim, ele enfrenta um processo eleitoral movido pela coligação “Renovação de Verdade” — formada pelos partidos PL, Solidariedade, Agir e PSD — grupo que esteve na disputa direta e acabou derrotado no pleito municipal.
É nesse ponto que o clima político se intensifica. Entre os nomes ligados à articulação jurídica está Raimundinho da JR, que também disputou a prefeitura e não conseguiu vitória nas urnas. Agora, o discurso que circula entre aliados do governo eleito é de que a oposição não teria aceitado o resultado das urnas e estaria tentando reverter no Judiciário aquilo que não conquistou no voto.
Nos bastidores, a leitura é de que a ação representa uma tentativa de estender a disputa eleitoral para além das urnas, transformando o processo judicial em uma espécie de “segundo turno prolongado”, agora travado no campo institucional.
Enquanto isso, o caso segue seu trâmite na Justiça Eleitoral. A ação foi proposta logo após as eleições de 2024, mas somente em 2026 chegou à fase de audiência de instrução — etapa em que testemunhas são ouvidas e provas passam a ser analisadas de forma mais aprofundada pelo Judiciário.
Como ocorre em processos dessa natureza, os prazos costumam ser longos. Após essa fase, ainda haverá sentença em primeira instância, com possibilidade de recursos ao Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) e, posteriormente, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília. Na prática, o desfecho pode levar anos até uma decisão definitiva.
Esse cenário abre espaço para uma realidade comum na política brasileira: muitas vezes, o tempo da Justiça não acompanha o tempo do mandato. Assim, há possibilidade de que o prefeito conclua sua gestão antes de qualquer decisão final, mantendo o impasse jurídico aberto durante todo o ciclo político.
De um lado, a oposição sustenta o discurso de fiscalização e legalidade. Do outro, o grupo governista reforça a legitimidade do voto popular como base central da democracia. No meio disso, a cidade acompanha um embate que já ultrapassou o período eleitoral e se estende para dentro dos tribunais.
O embate político em Dias d’Ávila não é um fenômeno isolado. Ele reflete um padrão recorrente da política brasileira, em que disputas eleitorais frequentemente se prolongam no campo jurídico e institucional.
Em leituras feitas por parte dos defensores do governo municipal, o cenário atual remete a um episódio marcante da política nacional: o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.
Naquele período, a narrativa de apoiadores da presidente apontava que sua saída do cargo teria sido resultado de uma articulação política de forças de oposição que não haviam conseguido vencer as eleições presidenciais anteriores. A partir disso, o processo de impeachment — fundamentado em acusações como as chamadas “pedaladas fiscais” — passou a ser interpretado, por essa visão, como uma forma de reorganização do poder político fora das urnas.
Ainda que os contextos sejam completamente diferentes em escala, estrutura e legislação, a comparação é utilizada no debate político local para ilustrar uma sensação recorrente: a de que disputas eleitorais podem, em determinados momentos, migrar do campo do voto para o campo das instituições de controle.
A grande questão que permanece em aberto é sensível e central para qualquer democracia: até que ponto os mecanismos legais servem exclusivamente para garantir a justiça do processo eleitoral e quando passam a ser percebidos como instrumentos de disputa política?
Em Dias d’Ávila, esse debate se intensifica justamente pela polarização do cenário. O processo judicial segue em andamento, sem decisão definitiva, enquanto o ambiente político permanece dividido entre a defesa do resultado das urnas e a contestação da legitimidade do mandato.
Mais do que um caso isolado, a disputa revela um dilema recorrente da vida pública brasileira: a tensão constante entre a soberania do voto e o alcance das instituições judiciais na definição dos rumos do poder.
Enquanto não há decisão final da Justiça Eleitoral, o cenário segue aberto — e a política local continua marcada por essa disputa que já não se limita às urnas, mas se estende ao tempo e à interpretação da própria democracia.
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